segunda-feira, 19 de maio de 2014

Fases

Aos seis anos viajei com meus pais e meus tios pela América do Sul. O meio locomotivo era uma Belina duas portas, recém pintada de azul royal. Em território nacional seu porta-malas media a dimensão de um universo gigante, atravessando BRs era um cortiço apertado. Meus avós ficaram responsáveis pelos cuidados da minha irmã, então com pouco mais de um ano. A programação da viagem duraria trinta dias e talvez uns dez mil quilômetros. Para uma criança devia ser algo como a volta ao mundo ou um número com muitos zeros que não cabia na calculadora. Guardo reminiscências da aventura. Era verão; os respingos das cataratas; um quarto abafado de hotel; a visita a um casal de chilenos cuja filha chamava Chimena; a sandália de couro que usava; o cheiro de carne assada e a água com gás.
Odiava água com gás. Por alguma razão desconhecida, em pontos da viagem não encontrávamos água sem gás. As estradas, certamente não ofereciam lojas de conveniência recheadas de gostosuras e líquidos saborosos. Os postos, cuja função era abastecer os carros aventureiros que cruzavam fronteiras, ofereciam combustíveis e borracharia e água de torneira e banheiro sujo. Fui obrigada a aprender fazer xixi agachada atrás da porta do carro e... tomar água com gás.
Um ano depois, meus outros avós decidiram patrocinar uma viagem para os seis primeiros netos e uma única bisavó. Éramos três meninas e três meninos quase todos da mesma idade. Esses avós optaram pela multiplicação em massa e tiveram onze filhos; dez vivos e um morto. Filhos em série, em geral, produzem filhos em série. Da meia dúzia, quatro tinham sete anos, um oito e uma nove. A bisavó contava na época com oitenta. O destino foi Caldas Novas, lugar turístico de Goiás. Fomos de ônibus. Foram 12 dias de viagem, sendo um para a ida e um para a volta. Dessa aventura guardo lembranças – diferente das reminiscências, elas se movimentam. As piscinas eram aquecidas; havia um bar com chafariz dentro de uma delas; o buffet de comida era farto; tínhamos direito a um sorvete por dia; dormíamos as nove; a moeda local eram conchas coloridas que formavam colares ou pulseiras e equivaliam ao dinheiro de papel – uma espécie de percursor do cartão magnético e meu avó, que estabelecia um relação de apego com o dinheiro, oferecia a cada refeição água tônica; para todos.
Odiava água tônica. Uma classe de água com gás que revela seu potencial de refrigerante, apenas para os que toleram sua amargura inicial. Sem muito êxito implorávamos por uma coca-cola. Vindo do mesmo avô que não autorizava mais de um Yakult por dia, reciclava os caroços da azeitona no óleo de soja para pegar o gosto e comprava bengalas de pães por serem mais econômicas, não obtivemos muito sucesso. A coca era cara e fazia mal, enquanto a tônica além de mais barata, ajudava na digestão. No terceiro dia diminuímos o consumo de latas para três.
Não conheço nenhuma criança que tome água com gás ou tônica. Entendo que exige um paladar refinado, marcado pelo tempo e pelas experiências. É um traço da filogênese que se repete na ontogênese da raça humana. Mas para o meu avô isso não fazia a menor diferença, talvez tenha nascido amargo; tampouco para os argentinos.
Atravessei a primeira, a segunda e a terceira infância evitando esses dois líquidos. Continuavam amargos como remédios e para mim, estavam associados a estados de maus humores. Eram a tentativa de varrer para dentro os excessos que moravam nas bocas. Restos de palavras, desafetos e agonias.
No final da adolescência conheci o antiácido, provavelmente após algum exagero e, conclui a série gasosa na mesma época em que conheci outro amargor que me fez fazer as pazes com o gás da água e da tônica e do antiácido.
Passei a tomar cerveja e café. Passei a entender melhor meu avô.    


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